A ARTE DE
EDUCAR
COMO ENSINAR VALORES ÁS CRIANÇAS
Transmitir aos filhos algumas normas éticas é essencial para que se desenvolvam como pessoas e vivam em harmonia com os demais.
ANGELS MARÍN
Um dos maiores problemas com que nos defrontamos, os pais, é atransmissão de valores aos nossos filhos, começando por quais valores devemos transmitir, já que a sociedade atual mudou muitos e já não são válidos alguns dos valores denominados tradicionais, que nos inculcaram na infância.
Sem dúvida, independentemente das opções religiosas, se elas existem, há uma série de valores humanos que podem aplicar-se a todas as culturas, como o respeito aos demais, o senso de justiça, a sinceridade, a gratidão, a compaixão, a responsabilidade, a visão crítica e o atualíssimo cuidado com a natureza.
Decidir quais valores transmitiremos aos filhos é uma questão pessoal, mas frequentemente o problema não é o que ensinar, mas sim como fazê-lo.
ENSINAR COM O EXEMPLO
Devemos partir do básico de que as crianças ao nascer não sabem de normas. Durante os primeiros anos seu mundo vai se reger pelas regras e ensinamentos que nós dermos. Por isso é necessário ser consequente com nossos próprios princípios e entender que a interiorização de normas e valores é um processo que deve iniciar-se desde a primeira infância e evoluir sempre em função da idade e da capacidade da criança.
É evidente que aos três anos é difícil que possamos fazê-las compreender o conceito de fraternidade, mas já podem saber que não podem machucar um irmão menor, por exemplo. Este passo é imprescindível para que algum dia saibam conscientemente o que é amor e respeito para outra pessoa.
“O fundamental é ensinar com o exemplo”, afirma a psicóloga infantil Rosane Rosas. Cerca de 90% do que as crianças aprendem entra pelos seus olhos. As crianças mimetizam, tomam como modelo de conduta aqueles que vêem. Assim, pouco serve explicar os valores que queremos transmitir se não os estamos aplicando na vida cotidiana. Não adianta dizer que não se deve machucar o irmão menor, se nós o maltratamos, na condição de pais.
Considerar que o outro é tão valoroso e importante quanto si mesmo, independente de suas idéias, costumes, raça, idade ou sexo, é o ponto de partida indispensável para poder assumir outros valores como a justiça, o civismo e, inclusive, o amor. E aceitar o diferente é, por sua vez, um dos mais difíceis de interiorizar, porque a criança, um ser humano em desenvolvimento que espera integrar-se a um grupo (a família, a escola, a sociedade) costuma manifestar seu medo ao diferente. Neste, mais que nos outros casos, é básico analisar nossos atos e ensinar com o exemplo. Não servirá de nada dizer que somos todos iguais se ouvem seu pai dizer que as mulheres não sabem jogar futebol ou dirigir carros. Ou quando vêem que a maior parte das tarefas domésticas quem se encarrega de fazer é a mulher. O mesmo pode aplicar-se a comentários sobre raças, nacionalidades etc.
Poderíamos dizer que o respeito, e o que hoje costumamos denominar de tolerância, se transmitem por impregnação, se “respira” na casa, onde todos e cada um de seus membros são importantes e aceitam normas que permitem a vida em comum. Neste sentido, é necessário aceitar que um filho seja diferente já desde pequenino e que não pense como desejariam seus pais. E sempre que seu comportamento não for incorreto ou que haja desconsideração com os demais, deve-se aceitá-lo como é, respeitar sua diferença. O carinho, a confiança e o amor são básicos para o desenvolvimento mental e físico da pessoa desde a infância.
Pelo contrário, sentir-se constantemente questionado, coartado e julgado por um dos pais, que espera ‘outra coisa’ ou ‘algo mais’ de si provoca insegurança e baixa auto-estima, que se traduzirá num filho problemático e num adulto carregado de medos.
ESTABELECER LIMITES
É necessário que as crianças tenham muito claro onde estão os limites do comportamento aceitável e que estes não devem ser ultrapassados. Isto implica num comportamento exemplar (de dar exemplo) por parte dos pais, incluindo quando as crianças os põem à prova. Não se deve temer as reações dos filhos, sejam quais forem. Se não come, não comerá; se chora, já já passará; se montam um ‘espetáculo’ na rua devem ser castigados por isso, mas sem violência. Os castigos devem ser adequados à idade da criança e a seu nível de compreensão, e elas só podem ser perdoadas em troca de uma mudança para uma atitude positiva e uma emenda naquilo que gerou a reprimenda. Um castigo não deve ser suprimido por causa de choros ou manhas, senão não funcionarão na próxima vez e a situação tenderá a se complicar cada vez mais. É importante ressaltar que a criança deve ser ouvida com atenção em seus argumentos e explicada a atitude que os pais estão tomando, mesmo que seja um castigo.
Sobre este tema é muito importante ter claro o que castigamos e o que premiamos. Por exemplo, os pais frequentemente caem no erro de ceder ante as pressões para que as crianças passem a se ‘porter bem’. É típico o caso da criança que não para de pedir quando se sai às compras e que ao final consegue o que quer porque os pais ‘não aguentam mais ouvi-lo’. Evidentemente, a criança continuará a ter este comportamento. Ao ‘comprar’ o seu silêncio não se pode cobrar que a situação não se repita.
Mas, ao contrário, devemos premiar a criança que se portou bem em toda a parte ou que tenha colaborado em casa? Não se trata de estimular o comportamento das crianças com recompensas ou prêmios, mas sim ser justos e pensar que se nos ajudaram ou acompanharam devemos ser agradecidos e expressar isso. Assim, mostraremos que a gratidão é importante e que colaborar é um valor positivo e gratificante. Na mesma linha, se sempre estamos ocupados com outras tarefas quando os filhos reclamam nossa atenção, pode acontecer que também eles não nos atendam quando os solicitamos.
UM DIÁLOGO FECUNDO
As crianças entendem melhor uma atitude positiva que a negação. É melhor dizer-lhes que coloquem a bicicleta para dentro, pois pode chover à noite e estragá-la do que dizer em tom autoritário ‘faça o favor de colocar a bicicleta para dentro!”. Uma frase positiva que explique a razão de um ato sempre motivará mais que uma ordem taxativa. Às crianças é importante explicar o porque das coisas. O ‘faça porque eu estou mandando’ não ensina nada a ninguém, nem sequer disciplina.
É importante também aproveitar situações da vida cotidiana para conversar com eles sobre alguns temas importantes. Vamos dar um exemplo, quando vemos televisão com as crianças. Podemos imaginar um filme em que acontecem coisas ao protagonista principal. Pode acontecer uma conversa, com vários diálogos:
“Como achas que ele pode estar se sentindo” – isto faz com que ela se coloque no lugar do outro e compreenda seus sentimentos e atitudes, mesmo não concordando com eles, eventualmente.
“Como você se sentiria nesta situação?” – isto ajudará a que se conectem com seus próprios sentimentos e ajudará a que os expressem verbalmente.
“Como achas que eu reagiria nesta situação?” – isto nos dará uma idéia de como nos vêem.
“Por que acreditas que eu faria assim, e como você agiria em meu lugar? – isto permite que se ponham em nosso lugar e entendam nossa reação. Em seguida saberemos a resposta que esperam que tomemos.
A psicóloga Rosane Rosas afirma que “deste tipo de situação se pode tirar muito proveito. Colocar-se na pele do outro ajuda a encontrar soluções e permite se falar dos sentimentos, que é a grande dificuldade atual. Não se pode valorar uma situação se não se conhecem as próprias sensações. Assim, reconhecer os sentimentos, se se está enfadado, contente, com raiva, nervoso, feliz, é básico, fundamental”.
O mesmo pode acontecer quando nos relatam um sucesso ocorrido na escola, algo com os amigos, ou o que leram num conto. É importante agradecer que compartam conosco suas idéias e sentimentos: “Estou contente que você tenha me contado isso”. Vínculo e confiança entre pais e filhos é o essencial para que tudo o mais aconteça, especialmente a passagem de valores.
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CONSELHOS AOS PAIS
Na vida cotidiana se produzem muitas situações que são propícias para a transmissão para os filhos de alguns valores éticos que podem ser interiorizados. Vamos expor alguns exemplos práticos que poderão te servir como guia.
O SENTIDO DA RESPONSABILIDADE
Para ser responsável é necessário ter responsabilidades. Não se pode pretender que uma criança a que desde pequeno tenhamos solucionado todos os problemas assuma de uma hora para outras tarefas, quando chega a adolescência.
As crianças pequenas são cooperativas por natureza, lhes interessa o mundo dos adultos e querem participar dele. Por isso, entre os 3 e os 6 anos é comum se oferecerem para ajudar a lavar pratos, limpar a poeira da casa, fazer a comida. É tudo uma brincadeira. É bom aproveitar esta disposição. É provável que dêem mais trabalho do que ajudem, mas é a forma que entendem que as tarefas domésticas são de toda a família, que colaborando tudo acaba antes e há mais tempos para outras brincadeiras, que manter a casa limpa é importante, etc. Conforme crescem podem ser responsabilizados por áreas determinadas, como a limpeza de seu quarto, a compra do pão, e de seu ‘trabalho’: estudar, fazer os deveres...
DESENVOLVER A GRATIDÃO
“Como se diz? Obrigado”. Algo tão simples como ensinar a dizer ‘agradecido’ a uma criancinha é fundamental para ela desenvolva a gratidão. Antes inclusive que saiba andar, temos que dizer ‘grato’ por ele, deixando muito claro que aquele que ganha algo, seja uma bala ou um pequeno presente, está recebendo o resultado do esforço e o carinho de quem dá, e merece o agradecimento. Nossa atitude lhes serve de exemplo, por isso, além de agradecer quando recebemos, é importante ensinar-lhes a pedir as coisas “por favor” e também a desculpar-se. Pedir desculpas e perdão uma criança, a um filho, não significa perder a autoridade , mas demonstrar que a respeitamos e que todos podemos nos equivocar e quando isso acontece, podemos retificar nossos atos.
RESPEITAR A NATUREZA
Fechar a torneira quando estamos escovando os dentes explicando que não se deve desperdiçá-la; não jogar lixo na rua ou fora dos recipientes próprios; aproveitar os dois lados do papel na hora de desenhar, informando de onde vem o papel e que devemos aproveitá-lo ao máximo; reciclar o que for possível, etc, são atos e posturas que vão se fixando nas crianças, se eles os vêem desde pequenos em casa. E é importante que sejam explicados os porquês destes atos. Por exemplo, costumam entender melhor o valor de não desperdiçarem a água se numa excursão vêem um riacho seco ou poluído, ou uma represa onde a água armazenada deve servir para milhões de pessoas e que pode faltar para muitos.
É importante estimular o contato das crianças com a natureza por vários motivos, até porque no mundo atual em que vivem e no futuro, onde viverão, este é um dos mais graves problemas que enfrentarão. Além do que é ótimo transmitir valores mais profundos, de amor à natureza. Plantar uma pequena horta ou flores é uma maneira de transmitir idéias tão valiosas como o respeito à vida, a importância dos recursos naturais, a colaboração numa tarefa, a mudança das estações e os ritmos da natureza (interna, inclusive), e também a compreensão da morte.
ESCUTAR AOS DEMAIS
Para isso é fundamental que as crianças sejam escutadas e respeitadas em casa. É necessário ensiná-los a não interrromper as conversas, o pensamento do interlocutor. Mas isto não significa que não possam opinar, mas sim que devem esperar sua vez para falar. Se os fazemos calar sem escutá-los ou desprezamos sua opinião, dificilmente terão opinião própria ou a expressarão com convicção quando for o momento oportuno.
A atitude, quando for o caso de interromper, deve ser respeitosa, levantando a mão e pedindo licença para tal. É necessário fazer-lhes ver que estamos mantendo uma conversação e que há uma forma de participar dela sem grosserias. Devem esperar que o outro acabe de falar e logo podem dizer o que pensam.
Se há uma conversação na qual não queremos que intervenham, pois se trata de um tema a ser decidido por adultos, deve ser explicado porque neste momento eles devem só escutar. Muitas vezes o mais importante não é dizer sua opinião, mas sentir que participam do grupo, no lugar de crianças, e que se conta com eles.
TER OPINIÃO PROPRIA
Para que as crianças possam desenvolver opinião própria é importante que acreditem que o que dizem é importante, o que requer um mínimo de auto-estima. Para isso é fundamental que suas idéias sejam escutadas e valorizadas, como foi explicado no item anterior.
As vezes são muito ousados e capaz de enfrentar o mundo defendendo uma idéia. Isso é bom. As crianças costumam ser idealistas e não há porque ‘cortar-lhes as asas’ com respostas como ‘isso não interessa, não se pode fazer nada’. Por exemplo, algo muito habitual quando são pequenos é que ao ver um mendigo na rua perguntem o que lhe aconteceu. Alguém sem casa e excluído da sociedade rompe seus esquemas. Depois de explicar-lhes a situação, costumam perguntar porque não lhes damos dinheiro. Depende de cada um decidir se dá ou não, mas é preciso explicar o motivo. Se for feita a caridade, é importante contar porque damos algumas moedas ao senhor carente. E se resolvemos não dar, é necessário explicar também. Por exemplo, podemos dizer que existem serviços sociais do governo, pago por todos os cidadãos, e que tentam dar cobertura a essas pessoas.
O mais importante é transmitir às crianças que devemos ser conseqüentes com nossas próprias idéias e defendê-las ante os demais, escutando também as opiniões alheias e, importante, que não é feio nem sinal de fraqueza mudar de opinião, se achamos a outra mais fundamentada. Defender a própria opinião é um bom valor, mas isto não precisa se transformar em rigidez e ‘cabeçadurice’, uma mostra de insegurança e pouca escuta.
APRENDER A SER JUSTOS
As brigas infantis propiciam o aprendizado deste conceito. Imaginemos que Paulo pegou o carrinho predileto do irmão e o exibe como um troféu, perante a rtaica do outro, que lhe toma à força. Choro de Paulo e começo de briga. O que fazer? Pablo pegou sem permissão e Luiz o recuperou com violência. O maior é o dono, mas dar-lhe total razão é copnsolidar sua ‘superioridade’ e passar por cima do ato violento. E tirar o carrinho dos dois, é justo? É fundamental que cada um pense sobre sua própria atitude e se coloque no lugar do outro. O ideal é que após isso, ambos cheguem a um acordo.
Ser justo é a soma de muitos outros valores: respeito, confiança, compreensão... E não ser sempre equânime ou igualitário. O respeito à diferença também tem seu papel na justiça.
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