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foto: Fernando Tangi A REVOLUÇÃO DA LONGEVIDADE

Nunca em toda a história viveram no planeta tantas pessoas com mais de cinquenta anos e nunca existiram tantos centenários. Que mudanças de mentalidade são necessárias para melhorar essa vida que, por tantos fatores, aumenta cada dia mais?
 
A década de 60 foi em todo mundo um período notável de protestos, rebelião e mudanças. Nela se lançaram algumas iniciativas “contraculturais” que passaram a formar parte de nossa sociedade convencional: os movimentos a favor da liberação da mulher, dos homossexuais, da justiça racial, da defesa dos consumidores e do meio ambiente. Aqueles que vivemos de perto este turbulento período temos as vezes a sensação que tudo acabou, que o livro se fechou e a história terminou. Mas com exceção dos que nos abandonaram prematuramente, os protagonistas destes movimentos continuam presentes e atuantes. São pessoas com algo mais que cinquenta e sessenta anos cuja criatividade cultural e insurgência política juvenis não desapareceram: seguem formando parte de suas recordações históricas.
           
A geração que era jovem nos anos sessenta e setenta está se convertendo agora numa geração madura muito especial, que reinterpretará o sentido de idade de um ser humano. Quando digo “especial” não me refiro somente ao número de seus integrantes, que por si é notável (no caso dos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial se produziu o maior incremento demográfico que já houve no país, a ponto que esta geração recebeu um nome especial: os baby boomers, conseqÃ?ência do “auge dos bebês” que aconteceu após o final da guerra). Mas além de ser numerosa, a geração dos baby boomers foi melhor educada, mais viajada e mais potencialmente influente no aspecto político.

No meu livro “A criação de uma contracultura” me ocupei destes jovens dos anos sessenta e de suas realizações; agora, no “A revolução da longevidade”, abordo o tema desta mesma geração trinta ou quarenta anos depois. Dentro em breve ela será a geração aposentada, passará a uma etapa da vida que guarda notáveis paralelos com aquela outra que se encontrava nesta posição quando estavam no secundário ou na universidade. Com efeito, logo deixarão para trás a luta competitiva, a necessidade de destacarse e de provarse a si mesmos na carreira profissional, na lide de ganhar dinheiro, de criar um lar – todos esses entremesclados objetivos humanos que compõem a idade mediana de qualquer sociedade humana. Um vasto número de pessoas entrará neste período da vida que chamamos “ aposentadoria” e que acostumamos a ver como um grande vazio, mas que pode brindar ao ser humano uma grande liberdade e enormes oportunidades. E esta idade da aposentadoria vai durar mais do que nunca. O que faremos com esse tempo? Que uso daremos a este presente que a vida nos deu?
 
CEM ANOS NÃO É NADA
 
Eu passei trinta ou mais anos de minha vida convencido de que iria morrer a qualquer momento, em função de uma enfermidade grave que tinha. Há pouco mais de 15 anos, no final dos anos 80, um milagre médico me salvou. Mas logo descobri que para os médicos e cirurgiões que o realizaram, não se tratava em absoluto de um milagre, mas sim de uma operação de rotina. Mais recentemente, minha esposa esteve também a ponto de perder a vida e novamente a medicina a salvou com uma operação cirúrgica. Quando perguntei ao seu cirurgião se já havia feito a mesma operação muitas vezes, me respondeu que centenas. Me dei conta que este homem acudia todos os dias a este trabalho rotineiro de salvar vidas que a apenas três décadas atrás haveriam se perdido. Isso me abriu os olhos.

Somos herdeiros de uma formidável tradição da ciência médica e do resgate de conhecimentos seculares. Cada uma das medidas de saúde que são adotadas – trate-se de campanhas contra o fumo, do uso de cintos de segurança nos carros, dos brinquedos infantis não perigosos, as recomendações para uma alimentação mais saudável etc – aumentam nossa média de vida coletiva, e dentro em pouco será normal chegar aos cem anos de idade. Além de todas as inovações da biotecnologia, com suas promessas de esticar a vida em várias décadas. Assim, nunca em toda a história existiram no planeta tantos indivíduos com mais de cinquenta anos, nem tampouco tantos com cem anos ou mais (inclusive proporcionalmente). As pessoas que ultrapassam os cem anos compõem o grupo etário que mais velozmente a umenta em nossa era.
          
Quando superei meu problema médico pessoal, me dei conta que eu era simplesmente uma pequena parte de uma enorme mudança que estava impulsionando a vida humana mais além da barreira dos oitenta, dos noventa e ainda, dos cem anos. E compreendi que este é um dom muito especial.
 
INFORMAÇÃO OU SABEDORIA?
 
Em nossa cultura temos uma super abundância de informação, mas uma escassez muito grande de sabedoria. E a sabedoria costuma ser um atributo das pessoas mais velhas. A geração dos mais idosos tem sido relegada, sobretudo nos países industrializados do ocidente – a um lugar muito marginal. Têm desempenhado um papel ínfimo na vida da sociedade. A palavra “velho” se tornou quase pejorativa, um sinÃ?nimo de “pobre”. Salvo que o idoso tenha uma sólida posição econÃ?mica e siga operando no mercado, entende-se que velho é um ser dependente, privado de sua capacidade de ganhar dinheiro.

Essas coisas começaram a modificar-se. Estamos ante uma nova geração de idosos, uma geração muito numerosa, habilidosa e que se encontra em permanente contato com os meios de comunicação e entre si. A medida que nos acercamos dos nossos oitenta, noventa ou cem anos, todos estaremos muito mais intercomunicáveis que antes e, como grupo, procuraremos reafirmar nossa presença como jamais aconteceu na história.
O que nossa velhice aportará então à vida social? Por certo que não será informação. Será sabedoria. A sabedoria se dá com os anos, como um atributo óbvio, uma conseqÃ?ência da experiência diária. Salvo que nos encontremos num estados de coma, todos os dias aprendemos algo novo. O problema não é a falta de sabedoria no mundo, o problema é que não lhe concedem o lugar que merece!

Conceder lugar e poder à sabedoria implica respeitá-la muito mais que a informação ou a perícia de um especialista. Uma das situações mais tremendas de nossa época é que ante um problema de qualquer tipo (social, energético, cultural) nos voltamos para especialistas, que invariavelmente nos inundam de cifras, de estatísticas e de análises. Tudo o que mostram são  conhecimentos livrescos, técnicos, até erudição específica, que não são desdenháveis, em absoluto, mas não são sabedoria. A sabedoria é o fruto do exame da própria experiência. Quanto mais oportunidades se dê à pessoa para reexaminar sua experiência – e uma vida mais longa é uma dessas oportunidades -, mais sábia ela se torna.

No entanto, não temos encontrado a maneira de canalizar esta dita sabedoria para a política. Frente a um sério problema ambiental, por exemplo, o que necessitamos é um par de almas sábias; de pessoas que hajam vivido nesse lugar ou nas vizinhanças e o conheçam por sua experiência pessoal. Talvez necessitemos de um artista, ou alguém que simplesmente haja vivido uma vida rica e plena, a quem possamos perguntar o que se pode fazer a respeito. E reconhecer que sua experiência tem tanto valor quanto a de um cientista ou técnico. E sem dúvida, mais do que a de um político.
 
CRIANÇAS ANCIÃES
 
Ali pelos anos sessenta, um dos principais alvos dos movimentos de protesto eram os especialistas. Nos Estados Unidos, os experts da Guerra Fria nos falavam das bombas e dos mísseis, configuravam a política exterior do país e assim contribuíram para gerar a Guerra do Vietnam. Nos presentearam com o equilíbrio do terror. A geração desses anos viveu desde então rodeadas de especialistas que frequentemente violavam o senso comum e assim criaram num ceticismo em torno de si. Desde então aumentaram nossas suspeitas e nossa rejeição, cada vez maiores, com relação a especialistas. Maior até do que seria saudável, porque as vezes os especialistas são necessários. Minha postura é que sua influência deve equilibrar-se com a experiência reexaminada dos homens sábios.

Em nossas sociedades ainda será necessário desenvolver-se um processo que quero chamar de “ancianização das crianças”, especialmente dos meninos. Isto se vincula com os casos tão frequentes e ressonantes ultimamente de garotos que pegam armas e disparam na escola contra seus colegas e professores. Um denominador comum desses casos é que se trata de meninos. Como parte da revolução da longevidade, o tema do gênero é um dos que mais mudanças terá que sofrer.

Terminaremos com uma visão totalmente distinta do masculino e feminino, do que é próprio do homem e da mulher. Muitos desses garotos têm uma imagem da masculinidade que pegaram dos programas de televisão. Ainda não todos estão desviados de seus rumos por ela, mas é um número suficiente para causar grandes danos. Esses meninos necessitam de uma concepção muito mais ampla e sadia do que implica ser um ser humano, em lugar de preocupar-se em ser homem, macho portando uma arma.

No contexto da revolução dos longevos, o que vai acontecer quando fiquem atrás as relações sexuais ou eróticas, as relações entre os gêneros, quando as pessoas já hajam terminado com esse jogo e ainda lhes restem vinte ou trinta anos para seguir investigando o que significa ser homem ou mulher, ser masculino ou feminino? Quando o sexo e a reprodução já não contam, entra em foco uma série de novos fatores, e começa a quebrar-se este estereótipo rígido adotado pelos jovens vulneráveis.

O poeta Robert Bly colocou este assunto brilhantemente ao dizer que estes meninos não estão crescendo numa sociedade de pessoas mais velhas que eles, mas numa sociedade que é possível chamar de “a sociedade dos cupinchas”, cujas bases são uma renúncia a crescer. Somente quando uma pessoa está disposta a amadurecer sem o temor da velhice se encontra em situação de oferecer algo autêntico aos mais jovens: um modelo sobre uma forma de crescer com graça no mundo.

Temos nos referido à possibilidade de que as pessoas tenham mais vida e uma vida mais longa. E a vida é a riqueza maior de qualquer pessoa ou país. John Ruskin repetia uma frase que para mim constitui um grande ensinamento: “A vida é a única riqueza”.
 
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Publicado em NEW DIMENSIONS.
 
THEODORE ROZAK, professor de História, é autor de “A Criação de uma Contracultura”, “Persona/Planeta”, “Onde Termina a Terra Baldia” e “O Culto da Informação” dentre outros. Sua obra mais recente “A Revolução da Longevidade” expande as idéias apresentadas neste artigo.
 
DESTAQUES
 
“A geração que era jovem nos anos sessenta e setenta está se convertendo agora numa geração madura muito especial, que reinterpretará o sentido de idade de um ser humano.”
 
“O que nossa velhice aportará então à vida social? Por certo que não será informação. Será sabedoria. O problema não é a falta de sabedoria no mundo, o problema é que não lhe concedem o lugar que merece!”
 
“Uma das situações mais tremendas de nossa época é que ante um problema de qualquer tipo (social, energético, cultural) nos voltamos para especialistas, que invariavelmente nos inundam de cifras, de estatísticas e de análises. Conceder lugar e poder à sabedoria implica respeitá-la muito mais que a informação ou a perícia de um especialista”.
 
“Somente quando uma pessoa está disposta a amadurecer sem o temor da velhice se encontra em situação de oferecer algo autêntico aos mais jovens.”
 
“Esses meninos violentos necessitam de uma concepção muito mais ampla e sadia do que implica ser um ser humano, em lugar de preocupar-se em ser homem, machos portando uma arma”.

 

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