
Entrando em contato com o lixeiro interior
Com duas garrafas pet vazias, três latinhas sujas
de cerveja e
pedaços de plástico nas mãos, venho contente pela praia
pensando em escrever este artigo.
Por Ralph Viana
Há uma historieta ótima – dizem que verídica – que se conta no mundo terapêutico/esotérico. Osho (Raajneesh naquela época) estava montando seu ashram nos EUA, na década de 80. Numa visita, um psicoterapeuta bastante famoso, que havia se convertido à sua filosofia e feito uma vultuosa doação para seu projeto, perguntou a Osho que funções teria na nova organização que estava ajudando a erguer. Esperava receber como resposta um lugar condizente com seu status e contribuição.
A resposta de Osho foi direta: “a de lixeiro”. Ante a expressão de incredulidade do terapeuta, Osho perguntou: “mas o que você faz como psicoterapeuta não é remexer nos aspectos negados e deteriorados das pessoas? Não é revirar os lixos emocionais e tentar limpar situações sujas? Você é isso, um lixeiro da alma. Portanto, trabalhar na limpeza vai ser muito adequado para você, aqui no ashram”.
O chute no ego do terapeuta enseja uma lição importante sobre profissões e funções na vida. Sempre sob o domínio deste ego primitivo que todos temos, valoramos excessivamente determinadas atividades e desprezamos outras com um desdém avassalador.
Mas não vou entrar em considerações histórico-sociológicas sobre trabalho intelectual, braçal, artístico e outros mais, porque, além de não ter uma clareza razoável sobre o assunto, não quero me afastar deste singelo tema com que comecei o texto, o de ser lixeiro.
UMA VOCAÇÃO NATURAL
A vontade de escrever sobre catar lixo me veio quando voltava de minha corrida matinal na maravilhosa e semi-deserta praia que moro, na Barra da Lagoa. Sempre retorno recolhendo garrafas pet, latas de cerveja, pedaços de plástico e outros destroços de nossa civilização. Apesar da revolta inicial por constatar a insensibilidade e falta de educação mínima de vários de meus semelhantes, que acham natural fazer do mundo a sua lixeira particular, meu sentimento predominante é de grande satisfação. Do fundo do coração me vem a sensação gostosa de que estou retribuindo um pouco à natureza pelo tanto que ela me oferece. Sinto que, como o beija-flor da fábula do incêndio na floresta, estou jogando minha gota dágua para apagar o enorme fogo. É gratificante.
As vezes o ego dá sinal de vida, claro, quando aquelas lindas moças bronzeadas me olham intrigadas ao verem tanto lixo em minhas mãos. Então penso como elas ficariam, deitadas na areia com toda aquela porcaria em volta, e sigo em frente, decidido.
Minha carreira de lixeiro começou, na verdade, há muito tempo atrás. Na década de 70 corria diariamente nas Paineiras, no Rio, e sempre me incomodava muito encontrar resíduos industriais naquela floresta encantada. Aquilo me tocava tanto pelo lado estético – é muito feia uma lata vermelha enferrujada de refri jogada num riacho cristalino – quanto pelo ecológico – aquele elemento contaminava agressivamente aquele sistema harmônico. E passei a recolher e colocar nas lixeiras o que encontrava.
INFLUÊNCIA MARCANTE
O entretítulo anterior (Uma vocação natural), me fez duvidar de mim. Minha vocação para lixeiro é realmente natural? Talvez não. Me lembro de uma pessoa que me influenciou decisivamente nesta função: minha querida avó Almerinda. Ao contrário do hábito quase comum dos brasileiros, que consideram os espaços públicos como sendo de ninguém, minha avó o tratava como se fosse de todos, inclusive seu. As cenas dela varrendo não só a calçada mas toda a rua, na sua pacata cidade de Campos, povoam minhas memórias infantis. E mais, reciclava latas jogadas no chão, que ela transformava em belos vasos pintados em seu quintal. Show total.
UMA FAMÍLIA QUE CRESCE
Esta atitude de respeito básico e solidariedade à natureza é presente em inúmeras pessoas e organizações, em todo o mundo. Alguns artistas famosos catam lixo publicamente (apesar de que nessa atividade nunca são fotografados pela revista “Caras”). Sonia Braga e seu grupo “Loucos Varridos” limpavam praças no Rio há não muito tempo, Sting declarou que cata lixo como um hábito, Jane Fonda é uma lixeira convicta, inclusive quando veio ao Rio fez questão de sair para passear com seu cãozinho e recolher seus dejetos na frente dos fotógrafos. Enfim, artistas lixeiros conscientes é o que não falta.
A confraria existe e cresce. Constantemente temos notícias de grupos empenhados nesta bela tarefa, periodicamente limpam o fundo das praias; subindo trilhas de montanhas e trazendo centenas de quilos de dejetos, e por ai vai se estendendo a corrente. Outra novidade estimulante é saber que escolas estão incluindo em suas atividades mutirões de limpeza pública com as crianças. Aguardamos uma nova geração de bravos lixeiros voluntários para breve.
O DENTRO E O FORA
Muitas vezes recorremos ao processo de arrumação de nosso exterior quando estamos desorganizados internamente, o que nos ajuda a colocar “as coisas” em ordem. Na limpeza voluntária sinto a mesma função. Ao cuidarmos da natureza externa simultaneamente estamos afinando nosso instrumento humano, limpando também nossa natureza interior.
Crescemos como pessoas quando exercemos nossa solidariedade descompromissada de reconhecimentos, quando ajudamos a vida a ser bonita, quando cuidamos do nosso planeta, de nosso bairro, de nossa rua, de nossa casa. Ajudar a limpar o mundo faz bem ao mundo, a todos, a nós.
A meus colegas lixeiros da Limpeza Urbana, aos voluntários das praias, montanhas, das ruas, rios e lixões, meus cumprimentos. Que bom que existem os lixeiros, que limpam com amor a natureza, a alma e o mundo, para que a vida continue a valendo a pena ser vivida.
E você, que tem também esse lado bonito em seu interior, descubra-o exercendo-o. Experimentando, na prática, você entrará em contato com seu lixeiro interior. Verá como ele tem a capacidade de tornar tudo mais bonito, a começar por você. Seja bem-vindo!
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